Wednesday, December 17, 2008

Canário

"Eis o enorme problema das expectativas. Criam metas precisas, e até caminhos para lá chegar. Sonhavas, como qualquer um de nós. Hei-de fazer isto, viver aquilo, procupar estas pessoas, dar, dar-me, receberei.
(...)
Lembras perfeitamente o momento. Tu gostas tanto de antecipar momentos. Dá-te mesmo mais gozo do que vivê-los. És assim com as prendas, por exemplo. Gastas mais tempo e dedicação no embrulho do que na compra. Pensas na cara das pessoas a desatar os laços, a rasgar com cuidado o papel colorido, esse momento em que só tu sabes o que lá está e quem recebe está prestes a descobrir.
(...)
Levantou-se e abraçou-te. Lembras. (...) Acompanhada. É assim que os abraços nos fazem sentir. Lembras-te. Que nunca mais te sentiste assim. E que aquele momento era de ambos, e que não se pode explicar, porque não pertence ao reino das palavras.
(...)
Aprendes que a comunhão é materia delicada, gelo fino, nó frágil. Juntos naquele abraço irrepetível, siamês, desmembrados quando estala a tormenta. Assustado, sem saber o que fazer, ele isola-se. Empurra-te para longe, afasta-se do abraço.
(...)
Já não são um, como jusgaste um dia, julgamos todos um dia, mas dois distintos, como somos afinal sempre, se realmente abrirmos os olhos e não pensarmos só com o que bate dentro do peito.
(...)
Repara que quem foge arquitecta logo a expiação. Incapaz de suportar olhar-se a fugir, ele aponta-te e pretende mostrar que o obrigas a isso. Ele é a vítima. Na dúvida inquieta, procura e julga encontrar-te a culpa.
(...)
Nasceste lá para oriente de ti. (...) Sentes por vezes já o crespúsculo em ti, quando todos os outros se esperguiçam ainda.
(...)
As árvores também morrem. (...) Porque muitas vezes parecem vivas mas se repararmos melhor os galhos lá de cima são já uns garfos encurvados, assim como os dedos dos velhos e das bruxas, e se rasparmos um nadinha com a unha verificamos que a madeira é toda igual. (...) Nem sempre a morte é absolutamente visível, ainda que diante de nós, e tantas vezes julgamos que uma árvore vive ainda, pela simples e enganadora evidência de se encontrar de pé."
Rodrigo Guedes de Carvalho

Inxalá

"Por isso se parte. Se foge. Se finge que se foge. Porque não se foge nada. Não se parte. Não se descobrem terras nem estranhos. Descobre-se cada um a si mesmo. Descobre-se a mão que se tinha nas mãos. As linhas da mão das mãos. O sentido que se traz dentro das mãos. Por isso não se parte realmente. Só se finge que se parte. E a viagem é a forma mais fácil de fingir. E assim foi ela para onde achava que devia ir porque o seu coração a guiava, e deve ter voltado para aquilo de que nunca partira. E assim fugi eu para onde achava que me podia perder porque perdera o meu coração e já não era possível voltar para o que de mim partira. Porque se partira."

Carlos Quiroga

Monday, October 20, 2008

Recuso-me a reger os meus dias pela iminência de mais uma perda...!

Deixei de ouvir a música que acompanhou os momentos altos do meu fado e deixei de ollhar imagens, de recordar gestos e tive que esconder os objectos desse tempo de fadas, para que a dor não ressurja a cada hora, a cada instante...

Mulher feitiçeira, mulher com coragem sem fim...? Não sei se se perdeu dentro de mim, mas não lhe sinto a vida como antes, pulsante no meu sangue... e resolvendo seguir adiante na certeza de melhores dias e dos muitos caminhos, sorrisos e abraços que ainda tenho para receber, do simples e imenso êxtase de estar viva e receber da terra mãe as forças para manter o equíbrio.


E os dias correm mas jamais serão completos enquanto sentir dentro as lágrimas frias, que agora têm dificuldade em sair, em rios de sentimentos como antes, quando nunca deixava acumular mágoas e feridas e as chorava literalmente até à exaustão, para depois renascer!

Sinto-me de tal modo frágil, vitima de distâncias que nunca procurei, que tenho sonhado frequentemente que estou emlabada no colo de um gigante que bem podia ser Deus e que trata de curar todas as feridas, que a necessidade de um mundo com mais afectos e a sua ausência real causa em mim. Deus! Ele que nos deixou o desafio de dar sem esperar receber e que nestas alturas parece impossível de cumprir.

É realmente grande o desafio de viver sem esperar receber e maior ainda o de perceber que para lá de toda a a nossa dor e mundo pessoais, a responsabilidade de dar é permanente.

Quando isto acontece acabamos por ficar magoados com os que nos são próximos por não perceberem o que se passa connosco e a nossa necessidade de receber. Por outro lado ao demontrar isso, impulsionamos nessas pessoas, que são o cerne da nossa vida, sentimentos de culpa, por se terem elas também perdido nas suas tempestades, sem atenderem prontamente à tempestade do lado.

Como gerir tudo isto e não deitar fora as partes boas da vida durante uma fase crítica? Como dar sem limites, quando estamos tão carentes de receber? Que desafio à transcendência!


Tenho estado fechada na minha carapaça a curtir a minha dor, apesar de parecer circular por ai com todo o ar da minha graça. Também me senti sozinha e imcompreendida por todos... fora do mundo, como costumo dizer e por isso inconscientemente calei tudo o que a alma sentia desordenado. No momento não sei sequer se sou capaz de abrir a tampa da concha para espreitar o mundo cá fora, onde não existem afinal as coisas como até hoje as percebi.

Tantas necessidades internas e depois as necessidades externas dos que me rodeiam. Se calhar não consigo corresponder ao que esperam de mim. Talvez seja um fracasso emocional, apesar de pensar que sou muito sensível aos outros e aos sentimentos.

Niguém identificou a minha capacidade de amar e o amor que realmente sinto, só porque não estive e não o demonstrei de uma forma corriqueira e facilmente imaginável, replicável do mais hollywoodesco dos cenários.

O amor é maior e deve deixar de se reger pela expectativa...

As vezes esperamos que as pessoas adivinhem como estamos e que respondam às nossas necessidades, outras só aceitamos o seu amor se ele for exactamente como o imaginamos ou como doamos o nosso.

Será que vale a pena ferirmo-nos uns aos outros, consciente ou inconsientemente, quando o que precisamos é descentrarmo-nos de nós para perceber que o outro também sente e sofre como nós e que por isso se perdeu nessa torrente de lágrimas internas ou externas, num cantinho só do seu mundo, ora não querendo ver ninguém, ora necessitando de todos os abraços?

Estou triste como à muito tempo não estava e isso irrita-me, pois não consigo aproveitar as coisas boas que simultaneamente às más me vão acontecendo. Sinto-me impotente, pois não consigo ter forças para me dar aos que amo como eles precisam, ora por não reconhecer as suas necessidades, ora por não ser capaz de enfrentar algumas situações.

Sei que preciso ter coragem e voltar a vestir a minha pele feitiçeira para ir á luta, que mais tarde ou mais cedo preciso de descobrir num dos meus muitos Cd’s de mp3 datados de longe e de tão perto, umas faixas que ainda não tenha escutado e que me levem a navegar junto aos passos que fui dando na areia, de forma a poder voltar a contemplar as imagens e as recordações, os objectos...voltar a sentir os cheiros e as sensações, recolocar a minha pequena cadeirinha e a bussola no lugar onde as coloquei antes, sem que isso me fira primeiro a vista e depois o coração.

Preciso mesmo de enfrentar os meus passados e de consolar todos os fantasmas, retirando deles tudo o que de bom me fizeram viver e sentir, transplantando só essas virtudes para o futuro que me aguarda.

Para isso preciso chorar ainda um mar, que se tem recusado a sair e que me força a fingir que está aparentemente tudo bem. Pois bem... recuso-me a continuar a vida neste corre corre em que sei que uma parte de mim partiu para sempre... mas nada faço para cuidar desse lugar vazio, nem para pensar em maneiras de o voltar a preencher! Recuso-me a continuar a ignorar que esse lugar ainda lá está e que afinal não está assim tão vazio, mas sim preenchido de restos naufragados que posso recuperar e cuidar, agora que sei que jamais sairão de mim...

Recuso-me a reger os meus dias pela iminência de mais uma perda...! Afinal se quisermos nada se perde...


Sei que posso ser feliz sem essa parte de mim que partiu e com as partes que nunca cheguei a construir, por entre os precalssos da vida... Sei que a porta estará sempre aberta para que elas voltem a entrar ou para que finalmente eu as reconstrua num sentido positivo ou elas se contruam, mas tenho que ter presente de que não depende só de mim que essas partes, agora à deriva, queiram fazer de alguma forma ainda parte da minha vida...

Sei que posso cuidar desse espaço e que tenho que sobreviver a todas essas possibilidades... mesmo às que fecham a porta pelo lado de fora, pelas que ficarão pela ombreira da minha porta, sem querer voltar a cruzá-la e a reinventar toda a energia que sinto espalhada pelo ar ou pelas que partirão por que chegou o seu tempo...

Sei que tenho que libertar a cada dia um pouco destas lágrimas que me percorrem internamente e deixar sair aos poucos uma dor que quis guardar...

Serei dela merecedora, mas tenho o direito de sorrir e envergar os braços abertos ao sol, na praia que nos viu nascer e aproveitar cada segundo com um sorriso, sem que isso signifique por dentro angustia e incerteza, a cada segundo, face às batidas soltas ou loucas de cada coração!

Thursday, September 25, 2008

Pelo que me faz falta mas a cada dia se afasta...

Falta muito, muito pouco para não aguentar mais...
O que será que vem a seguir a não aguentar mais...?
Espero não ter ainda de saber...
O desprezo é um veneno para os dias e a distância uma miragem quando não se avista nada!
Estou prestes a ceder não sei bem a quê, a que vontades, desejos e lágrimas de chorar o eu cá dentro escondido, entre o que sente como raizes de semente a perfurar a terra, teimando em deixar a sua marca e a estender os seus ramos frondosos para fora de mim...
Nem esses ramos tocam aquilo que preciso.
Nem eu sei onde encontrar a paz e a sensatez de me imiscuir desta sofreguidão da alma pelo que não posso ser, não posso ter, pelo que me faz falta mas a cada dia se afasta numa clara expressão de querer e não querer!
E acho mesmo que não vou aguentar mais...

Tuesday, September 16, 2008

Dor difícil de enfrentar...
dor da perda
Saudade, necessidade de a contar...
Certeza! Sensação de vazio!
Aquilo que vivemos muda a gente, mas não o que se sente.
A vida não volta a ser a mesma, é como o leito de um rio...
Nada ficou, nem que preso por um fio...
Quais os erros, quais as virtudes?
Daqui já nada avisto, nem mentiras, nem verdades, nem sossegos,
a não ser dor, sempre a mesma...
a que vem da permanência do amor...
Que é feito dos momentos de calor?
Das retinas a brilhar?
Do que não existe para contar!?

Wednesday, September 3, 2008

Saudades

Podemos sentir saudades de quem está perto. Essa palavra de poesia feita de perda e distância, onde quem sofre é quem fica na espera da nostalgia partida.

Mas que é possível matar as saudades, pois, relembrando a alegria dos momentos e das coisas eternas que ficam dentro, entre os suspiros brancos da memória.

E quando nos meus olhos nada mais restar dos rostos que saudo, sei que continuarão meu fado.

E sorrindo vou mentindo à dor, para que esta saudade não me sufoque a vida e dentro dos meus braços sonho todos os abraços.

Dor que é passado que ainda não deixou de ser saudade, nesta parte de mim que sinto para lá do pranto do coração a transbordar pelos olhos.

Saudade! O que resta hoje para sentir os mundos que vivi! O tempo avança, mas a saudade ilude os momentos e os rostos acompanham-te para todos os lugares.

Vento que passa pelas pegadas da vida, incapaz de apagar imagens que a saudade guarda como se de retratos se tratassem, nessa constante presença de quem não está!

Monday, August 4, 2008

Humanidades


Eu sou de parte incerta
e de todas as partes concretas
e não me sei capaz de criar crianças certas
ou de depositar nelas esta alma de poeta
num mundo com a cor da morte
onde se luta com a sorte
para receber a pureza do olhar
e a certeza da palavra amar!
Nasci colorida por muitas cores
transviada e dedicada a todos os amores
que podiam caber em mim
e por eles em cada dia
a exaltação de escrever os sentimentos
que preenchem de emoção
e pela vida a sofreguidão
por sentir o mundo em todos os momentos
sem vontades tortas ou horas mortas
nesse descobrir de maneiras e manias
diferentes das minhas
no ir amando os passos que a meu lado caminhas!

Wednesday, July 30, 2008

A uma ausência...

Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado;
Ando sem mover, falo calado,
O que mais perto vejo se me ausenta,
E o que estou sem ver mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado;
Choro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;
Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.

António Barbosa Bacelar
(1610-1663)


Wednesday, July 23, 2008

Uma resposta em nenhuma pergunta!

Como descrevem estas palavras minha alma...
É fácil não querer saber, ter medo e fugir
Ser um personagem distante
É fácil beijar quem pouco te mexe
O difícil é tremer
Desejar mais, arder de febre
Ter medo do que não se conhece
De descontrolar-se, de se perder, de se esquecer
Mas seguir adiante
Gelar as mãos
Suar o rosto corado de sangue
Ridicularizar-se
Palpitar o coração
Expor-se frágil dama, sendo homem ou mulher, às dolorosas boas penas
Se dar e às vezes se jogar a um desconhecido qualquer
Num gosto antítodo, intenso
Gostar do atrevimento e do profundo irrompendo
Fazendo-se viver realmente em dobro
Perceber o que não se fazia perceber
É um sisco o provisório demais
Não ser radical e inteiro ao que pode o bem
O bom mesmo é viver a generosidade da entrega
Responder ao aperfeiçoamento que não havia ainda
A soma do que começa e do que finda
A vida e a morte quando se beija
Às vezes coragem é ficar de frente
Tremer e não correr perante o gigante
Se sentir inocente
Sonhar numa plenitude como se tivesse chegado a eternidade
E de nada mais importar-se
Falar palavras tontas numa dicção solene
Sentir o coração rebelde chocalhando, chamando, querendo, pedindo, independentemente
E então não resistir à fome que a alma e o corpo temem
Se ver na letra que a música grita, que antes, careta, não se suportava
Num susto se percebe docemente que agora existe um único sentido
Uma resposta em nenhuma pergunta
Tudo se torna dele
Das intensidades do amor que vão da angústia à felicidade
E é talvez a unica arte que a arte transmita ao homem em sua total integridade...



Vanessa da Mata

Friday, July 18, 2008

Longe do mundo...

Hoje passei o dia longe do mundo... do mundo que os olhos podem ver ou que os ouvidos podem escutar... mas perto do mundo que o coração sente!

Os pensamentos começaram a correr e agarrei-me à felicidade, que não vou deixar fugir, através dessa certeza, de que todos os momentos são únicos, incomparáveis e eternos, permanecendo vivos dentro de nós...

É esse crer básico que me afirma que tudo é uma coisa só e que podemos aceder à energia e atracção que une a criação, que me acalma e que me mostra que tudo permanece acessível e que é possível gostarmos de nós, como realmente somos e dos outros como eles se apresentam...

Esse crer que me fez deixar de chorar os passados, porque eles simplesmente não existem, afinal demorei tanto tempo a perceber que tudo se encontra irremediávelmente ligado e vivo ao infinito.Tudo o que vivemos continua no presente a emanar um sentido para a vida...


Pela primeira vez não falo melancólica das dores da alma e depois de receber notícias de outros momentos sinto-me capaz, de humilde, pedir perdão pelas magoas injustas causadas ao longo do caminho, por causa do meu egoísmo afunilado, que me impedia a verdade. Sinto agora que posso deixar que ouçam sem palavras, aquilo que prometi calar ou que não sei expressar de mim, do que sou e sinto...

Senti vibrar dentro de mim certezas, que fizeram partir a dúvida e laços que se preservam e pensava perdidos. Enfim, percebi...

Senti o poder do olhar, desses lugares que mostram a alma e sem descrições ou demonstrações confirmei a voz que me falava ao coração! Podem chamar-me básica, mas na verdade as coisas básicas e simples sempre foram essenciais à vida, para que a harmonia e os afectos tenham lugar. E foi através das raízes básicas do amor que sempre resolvi anseios e problemas...

Sei que não vale hoje a pena complicar os momentos ou lutar contra eles e só me escapa a calma, porque verifico ainda em seres que amo a busca perdida desta luz salvadora e cósmica.
Uma luz que ajudei a apagar... mas que quero ajudar a reacender!

Longe do mundo das máscaras todos sabemos, que nada do que se diz e que acaba por magoar é afinal uma verdade sentida... que as defesas se usam na guerra, quando afinal desesperamos pelos abraços prolongados dos afectos...


E se as paixões se esvaziam, o amor à vida e aos que comigo a partilham será eterno e uno sem que nada o possa por em causa! É dura a vida quando vivida em nome do amor, mas longe do mundo que os olhos podem ver, depois de tocar novamente os corações amados e perceber que estamos unidos, para lá de todos os acontecimentos, não há mais espaços vazios nem falta de felicidade...

Eis o meu simples e básico segredo para ultrapassar a dor e curar as feridas!

Monday, June 23, 2008

Tiros no pé...

Ao longo da vida sempre fui confrontada, inexplicavelmente, com a necessidade de enfrentar determinadas ausências, disfarçadas atrás de uma normalidade aparente. Fui dando tiros no pé, ao não perceber que eram sinais, sobre o tipo de caminho que um ser humano deve percorrer, enquanto a sua sagrada energia circula na terra.
Foram ausências com que não contava e que surgiram sempre depois de a minha imaginação e espírito livre, o meu coração aberto se entregar a amar... Sei hoje que tiveram uma razão, mas nunca percebi porque não podia contar com o ombro amigo, do sangue que une os irmãos ou com o aconchego de um abraço apertado e frequente de um pai, quando esses momentos eram necessários e me pareciam naturais!?
Nunca percebi porque selei a fogo, ao luar e a preces, amizades e amores infinitos que para mim continuam vivos dentro, eternos, mas cujos personagens partiram para bem longe sem deixar rasto... nunca percebi os tiros que dei no pé quando encontrava um lugar, que me preenchia, e abria a porta das gaiolas para deixar fugir esses passarinhos de emoção, dispostos a cantar para mim?!
Na aparência das circunstâncias, todos os que amei e de quem a minha alma tinha sede estavam por perto, mas no fundo, aos poucos foram-se tornando cada vez mais inacessíveis à minha necessidade de afecto e a tudo o que tinha para lhes dar... Umas vezes partiam inexplicavelmente... de outras tinha eu motivos para os deixar partir, sempre com o desejo de uma próxima visita e com a mágoa do seu não regresso inevitável...
No fundo o meu vazio era egoísmo e queria sempre mais do que estava disposta a oferecer. E tantas vezes me forçei a tentar esquecer a necessidade de receber e nem mesmo assim fui capaz de dar incondicionalmente. Antes, fechei-me dentro de mim com as minhas mágoas, dores e com as memórias dos momentos, em que essas perdas ainda não existiam e as relações eram plenas... E quanto mais corria atrás da salvação dessa energia vital dos afectos, mais ela me escapava das mãos e a sensação de distância, vazio e impotência face aos acontecimentos acabava por me preencher os dias.

Posso dizer que já sofri ausências de todo o tipo e sempre foram afectivas, na família, nos amores e amizades, no trabalho...mas houve sempre um lugar que não se desgastou, apesar das crises e convulsões...Um lugar que alguém deixou sempre aberto para mim, apesar das diferenças e da forma diferente de sentir e encarar a vida, à qual nem sempre soube ser grata, onde nem sempre depositei tudo o que tinha para dar...um lugar de onde já exigi muito, num tempo em que fugia a mais tiros no pé!
Um lugar calmo onde repousar de todas as ausências sentidas e todos os lugares vazios, que gostaria de manter preenchidos, um ser que me completa e me aceita como sou e que sempre permaneceu ao meu lado, demontrando prazer ao meu toque, ternura face às feridas causadas pelos inumeros tiros que fui dando nos pés, devido às carências e inseguranças.
Um ser que demontra luz e felicidade face ao som da minha voz e à possibilidade de podermos para sempre dormir aninhados, enlaçando os nossos sonhos, que me suporta para que possa concretizar os meus planos e realizar-me, que sinto às vezes contemplar-me embebecido, como se eu fosse o mundo!
Um lugar aparentemente calmo e pacato, que a minha natureza me levaria a rejeitar, mas que por trás do pano onde só eu e ele sabemos os bastidores, se encontra preenchido de aventuras emocionais, de inteligência, projectos, amor, perdão e coragem, que percorre o mundo a caminho ou apenas sobre as almofadas da imaginação. Uma história que julguei nas alturas de crise, um lugar comum, mas que afinal é uma contrução unica e só nossa, um templo divino, que aprendo dia a dia a respeitar e a preservar.
Compreendo hoje esse destino comum à humanidade... essa necessidade de sentir a ausência para que possa alcançar a unidade de tudo e a realidade feliz de nunca estarmos sozinhos, no percuro semelhante a um rio que não para de correr, mas onde as mesmas águas só passam uma vez pelo mesmo lugar, contudo, moldando as margens para que se tornem perfeitas como trilho... Afinal todos os momentos são importantes!

Compreendo hoje essa necessidade de sentir a ausência, para que possa dar valor às presenças contantes e amantes que deixamos de ver, quando nos descentramos da capacidade de amar! Sei agora que é possível ser feliz suportanto a dor dessas ausências e de todas aquelas que ainda vivem em mim e das que estão por vir, transformando-as em seiva e alimento que me reforça, para continuar até um dia ver o mar...
Agora sei onde encontrar tudo o que preciso! É nas margens do caminho que permanecem as recordações das presenças, das amizades, laços e paixões que foram com a maré... Hoje sei que posso sentir a plenitude da vida e deixá-la cobrir o meu ser, porque para regressar a essas histórias e torná-las presenças vivas, basta deixar a corrente por uns instantes e percorrer a pé o percurso da margem, até ao lugar do passado onde quero voltar... para ali ficar e acariciar os momentos da minha vida como pedras preciosas... Afinal não há tempo, somos aquilo que somos e tudo é uma coisa só... É mais fácil realizar o caminho sabendo que nada se perde, mas que apenas tudo evolui e se transforma, sabendo que as ausências humanas nada valem à luz da presença divina, criadora e constante a meu lado e a essa lugar, a esse ser humano como eu, mas que posso chamar de amor, de casa e de porto seguro para ganhar forças e seguir...
Ah! Também descobrir que para amar são mesmo necessários muitos tiros no pé, mas que nesses momentos alguém nos carrega ao colo e nos deposita nas águas, que acalmam dores, vontades, desejos e paixões e nos ajudam a descolar dos caminhos que deixamos para trás na certeza de saber escolher!

Monday, June 16, 2008

Deixei de ter insónias...

Insónia!? Deixei de ter insónias assim que me apercebi que havia uma forma de lidar com os meus hospedes indesejados. Seres de luz e de trevas dentro e fora de mim. Como despresava antes a sua utilidade...
Agora e de há uns dias para cá durmo um sono de sonhos, que começam a ecoar nas horas acordadas. Retiro dessas noites encaloradas a força inconsciente para viver e contar a história, para realizar o que sou, com gosto e vontade de o ser mais... Demonstrar a existência de algo que lembra a omnisciência do ser, que colecciona memórias de outras vidas, num canto de amor.
Na fronteira entre o êxtase e a dor, regressar ao centro, certa dos passos dados, das festas sentidas, das danças e da musicalidade da esperança.
Afinal a escolha do que ai vem está tão acessível como as recordações, como as canções que recordo da infância e que me acalmam o pânico de outros dias, em que me achei perdida e distante das benéficas vibrações que tudo unem.

Sinto o cheiro das rosas no ar e das amoras a popular-me nos lábios e podia esta ser uma noite quente sobre a areia fria, mas ainda há bilhetes para muitas viagens que quero e posso fazer.
Tão bom que foi tirar estes dias, este tempo que não há só para mim, para estar pelas paredes dos afectos e acariciar os que comigo partilham a vida, para pensar e recordar sensações e outras pessoas e momentos marcantes, de forma feliz e chorar mas de alegria pelo sangue que me corre nas veias, ao som de músicas que dizem tudo sobre mim, sem nunca o seu autor me ter conhecido.

Foi bom sorrir através das banalidades da vida, aceitar o risco de viver e acordar de bom humor, brincando com coisas de nada que tudo fazem pela felicidade e agradecer a força que me fez seguir em frente e que na maioria dos dias não reconheço.
É bom saber do poder de prever regressos quando for a hora e aprender que às vezes vale a pena escutar o coração e sentir o espírito pulsar de um destino traçado, mas que podemos moldar, de missões a cumprir sem que o sacrifício e a abnegação doam onde e quando não devem amargar na alma.
Hoje e de alguns dias para cá, sinto-me mais livre para fazer o que quero, sem pressas, sem sobressaltos, sem a ânsia do momento e da obrigação seguinte e posso estar aqui a escrever sem que este momento perca o valor pela preocupação com o dia de amanhã.
Sei que vou crescer e escrever até ao último suspiro e até que reencontre toda a sabedoria que não sei em mim e que me une a tudo o que necessito, desejo e que me faz feliz!

Saturday, June 14, 2008

Será que ainda há Heróis?!

Lisboa, 05 de Maio de 2006 [Em pleno auge de uma enorme crise existencial que ainda se prolongou por 2007. Entretanto, chegou a paz e a serenidade, a compreensão, a disponibilidade para encontrar heróis de todos os tipos e para ser feliz, com tudo o que comporta ser humana e ter a capacidade de amar...]

O que eu queria era escrever um poema para descrever o meu estado de espírito e libertar-me desta ansiedade que me corre nas veias, desde que descobri uma crise em mim a crescer nestes últimos dois anos e meio, mas como o rio de emoções era tão grande acabou nesta prosa chorada e confusa, que deixo nas linhas abaixo.
Só sei que se ninguém quiser ler, ou nunca ninguém a chegar a ver, não faz mal, porque me sinto muito mais aliviada, agora que depois de tanto tempo a desejar escreve-la tive coragem de deixar mais uma vez, como é minha natureza quase incontrolável, as coisas que rotineiramente me quero disciplinar a fazer, por que a isso me proponho. Essa foi uma óptima sensação de poder ser eu, fazer o que me apetece e ser livre e não o que acham bem que se faça, se cumpra e se revele!

Fui capaz de ser eu sem me culpar por estará atrasar o mestrado, ou de não escrever o que tenho prazos para cumprir, ou de não visitar quem devo, atender como devia. Sabem que mais, que se dane essa obrigação compulsiva de responder a tudo de forma exemplar; a quem estava a mentir?! Não sou capaz de fazer bem metade do que as pessoas acham que sou ou que eu própria me convenço que sou. O melhor é mesmo assumir que sou assim flutuante, nómada, errante, de vontades, interesses. Que sou egocêntrica, preguiçosa, lunar e tentar ser feliz, porque sou assim e não uma “pedra” estática, imutável, monocultural e demasiadamente certinha para ser verdade.

Não imaginam, mesmo, o prazer de estar a escrever isto, nas circunstâncias de ter um mês cheio de eventos, solicitações e coisas a fazer, sem que isso me afecte e me faça sentir culpada, porque era mais importante para mim derramar estas lágrimas e estas palavras numa folha, para que se tornassem visíveis, saíssem de dentro de mim e me libertassem de toda a tensão e tédio, de que a vida do dia a dia me foi, imprevisivelmente, preenchendo.

O que quero é ser feliz e contribuir para um mundo melhor, repleto de boas experiências e mais leve de pessoas frustradas com a vida, que lhes é quase imposta pela geração anterior também de frustrados que nos educa para um mesmo registo emocional, para uma mesma falsa conduta de boas práticas a que ninguém que fale a verdade pode afirmar que adere totalmente.

Assim, deixo aqui a minha reflexão confusa sobre a minha admiração pelos “heróis” ou “santos” da vida, aqueles que me ensinaram a respeitar e a ter como modelo de vida e sobre as minhas recentes e posteriores inquietações e questionamentos sobre essa verdade, face à descoberta de novas perspectivas, que esta idade pós-adolescente e de adulto recente produziram em mim, inesperadamente, como se tivesse num pulo regressado a esses anos teen, que agora a uma distância moderadamente considerável, me parecem mais calmos que estes twenty.

Na verdade na altura simplesmente vivia e não questionava metade das coisas que me colocavam à frente, o que chamo hoje de ser feliz por ignorância. Efectivamente dói, mas prefiro este inquietante viver pensante e reflexivo, que nos acorda para a vida de uma forma sofrida, mas que nos faz sentir mais vivos e nos desenha os caminhos na ponta dos pés, lembrando-nos da capacidade de optar, investigar, reflectir sobre as nossas opções e sobre o próximo passo, de uma forma livre a autónoma que a ignorância não permite.

Permaneço dividida entre os dois mundos e no fundo não sei se eles serão opostos. Só não quero que as minhas novas perspectivas e opções sejam opostas à capacidade de amar acima de tudo…! Sei apenas que a outra face da moeda do que me foram mostrando, ao longo dos anos, não parece ser de trevas, malvadez ou insensatez gratuitas e que cada dia que passa penso que a capacidade de amar ou a forma de amar que me foram escrevendo na alma, pode ter outras variantes…o que magoa uns, não magoa outros. Tudo depende desse quadro de regras que nos metem pela testa mal começamos a despontar para a vida e que, na maioria dos casos, vem aumentar a frustração e contrariar a natureza humana.

Diz-se que a felicidade se constrói e que deve vir a partir dos outros. Concordo e acho que tenho que recuperar sonhos perdidos que estão do lado da vida que ainda me bate à porta, sem que isso magoe nenhum outro. Mas até que ponto o sacrifício nos transcende, ou pelo contrário nos faz frustrar e ai, então, acabamos mesmo por perder a capacidade de amar, tanto aos outros, como a nós próprios. As ataduras não podem ser tão fortes! De certa forma, o ser humano precisava de asas para voar…! Deixo com prazer, nesta hora em que devia estar a fazer outra coisa, que todos e eu própria consideramos socialmente mais importante, a minha reflexão sobre a afirmação “Ainda há Heróis…”

***
AINDA HÀ HEROIS…!
Heróis que percorrem a vida de cabeça erguida, faces alvas da verdade, pessoas corajosas, dedicadas às regras, à lei e à tradição, assíduas aos compromissos em que depositaram a voz. Que anjos sem mácula de trevas, militantes sem medo de amar…!

Sim! Penso que só por um Amor Supremo os heróis são capazes de sacrificar desejos e vontades, as loucuras e desaires hábeis, para os quais foi criado e aos quais foi sendo vedado o coração humano. Estes heróis parecem-me felizes, estátuas perfeitas de corpo e espírito, como as que vemos nos museus e nos aludem à destreza olímpica do ser, ou como os que vemos nos altares e nos lembram a pureza da alma que nunca chegamos a entender.
Regra geral, são admirados e no meu caminho de semente a árvore frondosa, que hei-de chegar a ser, foram-me ensinando que o sucesso e a felicidade, a justiça, a ética e a caridade se encontram em síntese nesse modelo, que deveria desejar alcançar. Seria, então, feliz assim que a primeira época em que as minhas pequenas flores se revelassem prontas a dar frutos.

A glória estaria na coragem de morrer todos os dias para a vida terrena, no acumular das privações necessárias para atingir a perfeição e a transcendência, no ser depositária de uma vida ordeira, que respeita a terra e os meus semelhantes, através daquilo que hoje sou tentada a chamar, de não experiência ou de privação da experiência, num sentido algo exagerado, pelas inquietações que me percorrem agora.

Concordo, obviamente, com tudo isto de uma forma inquietante e de perfeccionismo extremo, que hoje me corrói e ao qual não consigo corresponder. Às vezes até gostava de ser heroína e de braços abertos fugir do instinto, que me leva a crer que a liberdade de buscar algo mais além, nos pode mostrar caminhos, aventuras, sentimentos válidos e sublimes ,que o tempo e a história dos hábitos foram escondendo e punindo como se não fossem humanos e devessem estar presentes numa vida plena, recheada de experiência, que quão mais diversas, mais vão construindo o nosso mundo interior, repleto de cores e momentos mágicos, para cantar o nosso trilho pessoal no mundo…!

Pois é, às vezes apetece-me bater asas e lutar por esse estado de santidade que grita contra a minha natureza, voar, mesmo sabendo que não posso parar ou sequer vacilar. Mas observo-me atenta…aos meus castelos de ser mulher e antes de ser manhã tombo de um cálice de decisões, sem que nenhuma tenha sido tomada de forma convicta. Ninguém me avisou, nestes já longos anos (para mim) sobre a dor que causa o sabor amargo do vazio e sobre o êxtase, também doloroso, que causa a luz brilhante das recordações. Da queda quebraram-se os muros desse desconhecido a que apontam de imperfeito e agora não sei que fazer deste encontro com a dureza da vida e a beleza prescrita no copo de sonhos, que me embala o sono?!

Aventurei-me um pouco no mundo, percorri os lugares da minha cidade interior e no fundo da alma, as tantas imagens e experiências que deixei de viver ou que ainda não pude conhecer gritaram para chamar por mim…Aceitei viver algumas!? Sim, sei que agora estou perdida, errante de evasões e desilusões, mas também preenchida de afectos e novas emoções.

Afinal não quero depositar mais história num qualquer museu perfeito e dourado, quero construir o meu e quero que seja colorido, diverso, que desperte choros comovidos e sorrisos, vontade de viver a quem o visitar! Será isto medo ou incapacidade de verdadeiramente amar? Será manchar a vida de um pouco de trevas, de ser contra as regras ditadas na passividade dos dias, que correm na rotina do que está definitivamente certo ou errado, Pecar?

E sem limites visíveis a vida acaba por correr intensa, até me mostrar o que nunca me explicaram, que é um risco, mas que todos os dias acolhe quem somos: - pessoas, histórias e seres quebradiços à mercê das intempéries, mas também das oportunidades!

Sei que choro, mas a alma não quer mais nada com esta dança de melancolia e perante os corpos ávidos e a insegurança dos nossos sorrisos, na tarde tépida que passou, só me apetece afirmar que inteligente e feliz não é ser herói, mas saber que ser humano é condição intensa e assumi-la, cravada de fogo, objectos, lugares, sonhos, lutas, sensações, sentimentos, que espreitam à porta do meu castelo, esperando que eu os queira viver, escolhendo a minha panóplia de dores e amores! Afinal… Será que ainda há heróis?

Tuesday, June 10, 2008

Nessa paixão de existirmos como um todo!

Não sei se uso da palavra de forma generosa?
Talvez estejam estas letras demasiado apegadas àquilo que sou,
ao que sinto a cada instante.
Mas sei que são precisos momentos como este
em que nos reconstruímos por dentro!
Essa vontade de mudar para melhor que acorda um dia
pela manhã e que se reconhece nos olhares que nos rodeiam,
em cada reflexo do rosto, duvida que se faz certeza.
Estarei a divagar na essência de luz que me carrega o ser
nessa paixão de existirmos como um todo em tudo
nesse equilíbrio de elementos
onde encontro a terra, a àgua, o ar, o fogo do espírito e os sentimentos
e nessa felicidade que me acalma por sabê-lo!

Sou exactamente aquilo que devia ser...

Chegam as primeiras noites que anunciam o verão... Trazem um vento que me acaricia a pele sem ferir e sinto o sangue nas veias, quente, e a importância de viver este preciso momento. Ainda não sei para onde me guia o coração, mas acabo por confiar na direcção da brisa e no caminho que se encaixa em mim, onde as incompreensões deixam de importar, onde as decisões têm sentimentos e razão!
Sou agora capaz de me tornar adulta e compreender a vida com olhos de ver, sem esperar e expectar, sem que as reacções sejam simples respostas aos acontecimentos. O que as pessoas pensam importa menos, porque agora sei quem sou e sei melhor agradecê-lo e mesmo que não gostem quero aprender a saber amar! Sinto o pulsar dessa energia que me acompanha e sei agora poder transformá-la em tudo o que preciso para ser feliz...
Olho a lua e sei do sentido uno da vida apesar das suas fases, aparências e da alternância dos momentos. Deixo-me levar crente de que sou exactamente aquilo que devia ser e escuto essa voz que me dita a missão em cada batida do coração...

Wednesday, June 4, 2008

Agora é o tempo de vencer...

Gotas de morte pingavam ainda sem evidências. Eram veneno caseiro para matar o meu pensamento e sentia os pés frios como se um dreno me parasse o sangue. Quase perdi o sentido da vida, a criatividade e o que mais me custou, a alma, a paixão e o sorriso com que antes me entregava aos desafios.
Foi real esse tempo das musas cuja morte me fez chorar, tal como foi o que deixa hoje de ser o tempo das tragédias mentais ao virar da esquina, das sombras e das angustias.

Agora é o tempo de vencer a morte, o tempo da confiança e de voar sobre as culpas, duvidas e apegos, de deixar para trás os pensamentos duvidosos, cercar o medo e sentir os solavanços gulosos a enfraquecer, até que a agitação se torne calma e o coração preenchido de empatia e da certeza do amor!

Monday, June 2, 2008

Palavras sem som!

A beleza ousada da poesia necessita de outros para ser. Escrevo na esperança de que as palavras sejam som em lábios que percorrem caminhos, mudos, desvairados de viver só para si. Orgulho cheio de silêncio, onde o encontro se apagou como pegadas de areia. Sei da tristeza aborrecida destas letras de falar comigo mesma, enquanto não oiço o som daquelas vozes ignorantes de estar sós!

Silêncios Solitários


Pode ser que alguém não possa suportar
aquilo que digo, então escrevo...
A escrita é algo solitário
através do qual o mundo sente,
por isso nem todos podem ser escritores.
Seres que perpectuam momentos de silêncio,
quando o diálogo ocasional
e o encontro esporádico, sem toque e sem olhar,
consistem no mesmo
que a solidão inviolável...



Qualquer passo para a felicidade
acarreta sempre em demasia o sofrimento.
Já não há liberdade para os retiros da alma
nem felicidade solitária,
mas conta primeiro contigo
como a tua melhor companhia...
O que importa é o que tens de fazer independente e só
no meio da anómica multidão!

Monday, May 26, 2008

Globo de Luz!


Mais um dia passa nesta jornada
agora mais consciente.
Perder o receio
voltar a pegar na caneta e escrever
acreditar, gostar de ser eu
e não outra pessoa qualquer.
Superar desafios, desafiar cansaços
cansar a dor!
Viver através do que me chama em redor...
Sentir-me amada pelo globo de luz
que me proteje
por esses passos invisíveis...
Quase a chegar a casa, depois do deserto
a certeza de que são os pequenos gestos da vida,
a riqueza do coração!
Nada de extraordinário...
Se existo é para me desgastar a servir,
a estar, a sorrir e a chorar de emoção,
para me enternecer com os gestos de amor
que se apresentam na palma da minha mão!

Seiva Divina!


Ser e estar com essa prece de acção
que se alimenta do silêncio do coração...
A resposta a todas as perguntas
a verdade, a curiosidade, a intuição...
a vontade de lutar para que cada inspiração
saiba de cor o seu lugar...
Um caminho que não para,
um crescer que só cresce por acréscimo
Um desassossego contente de buscar...
Alma errante, destino comum
Incompreensão garantida
aceitação com paz do que nos dão!
Preces e alicerces que sustentam
fraquezas e tristezas
Força, energia, luz, compaixão
ouvir porque temos ouvidos
para acabar sentindo o sangue
que corre nas veias
e a seiva divina que escorre da alma!

Tuesday, May 20, 2008

Se estiveres ai...


Se estiveres ai tão calmo como aqui estou e escrevo...
sou e sinto...estarás! Estarás vivo para mim...
Mas há pessoas que não entendem este sentimento...
Mas se não sobem ao monte e não exultam de extase,
também não sofrem, não se queimam, nem choram...
Há quem não entenda que uma lágrima
pode valer por muitos sorrisos...
quem nunca experimentou essa intensidade
e beleza quase dolorosa...
E a vida corre e já não há razão para não sermos felizes
e mesmo que as lágrimas surjam, serão por horas belas...
por horas não perdidas, que ficarão sempre...
E se algum dia perdermos esta calma cintilante
E se algum dia perdermos a loucura de subir às montanhas
e voar nos sentimentos que nos prendem pelas mãos
e pelo olhar, pelas batidas do coração...
Mesmo assim as lágrimas não serão em vão...
Porque um dia soubemos o que é estar excitadamente calmos
no furor do sentimento mais terno e doce do mundo...
E porque mesmo assim, jamais sairemos um do outro
porque saberemos esses momentos irrepetíveis
e eternamente nossos...
Afinal depois da exultante calma
que se sente no cimo do monte
jamais haverá razão para não sermos felizes!

Era o real tempo da lenda!

Precioso é o mármore daquele castelo
que um dia fomos visitar...
Nesse dia, por entre suspiros,
ainda desejavas a minha companhia.
Era o real tempo da lenda
hoje não mais celebrada!
Nesse dia ouvi música vibrante
e alegrei a vida com casca de lima e muitos prazeres.
Criamos uma invenção naquela beira de água.
Foi de facto, um acto de liberdade!
Criamos uma invenção frágil como ave ferida
Relembrando a história
embora a tarde solarenta
nos sabores da maça
vinham cravados venenos,
que apagaram a história
transformando-a numa lenda longínqua
algures numa ilha de murmúrios
dentro de nós...

Tuesday, May 13, 2008

...

Se ouvires o vento sabes...
É o meu amor velando por ti...
Rasga a tela da memória...
Gastando momentos felizes
Intensos... e mesmo que não me vejas
Olha o céu, envolve-te na brisa que te trago
Mergulha em mim e vive
Intensamente a história da vida
Gasta os momentos eternos e não te esqueças nunca
Uma vez os nossos olhos cruzaram-se
E mesmo que não aprecies poesia, sei que apreciarás a minha...
Lutemos sempre por aquilo que sentimos...
Luta comigo e viverei feliz como um raio da manhã
Olhando a beleza em meu redor...
Palavras para quê? Não sei se percebes mas
Este é o teu nome gravado em mim...
Sim!
De onde vieste não sei, és uma luz
E como apareceste em mim, deixei-te ficar...
Mandou-te o sol iluminado de sorrisos como eu gosto
Amo-te! Um dia vi por dentro o teu olhar...
Tua... com toda a intensidade tua...
Os dias passam e cada um deles é mais uma gota de amor
Se ouvires o vento somos nós entrelaçados num olhar...

Na corda bamba...

[Abril de 2002]


Desenhado está o chão por onde têm de caminhar...
proprietárias luzes, em todo o caso não pertencentes ao circo...
Em suma, directamente envolvidos elementos para repensar,
momentos fugazes, ocasiões para que duas decisões
lutem por uma oportunidade...
Cuidadosamente ouvem-se guizos envolvidos no quotidiano...
Experiências de confidencialidade,
análise de aspectos críticos e da perigosidade...
A sua intervenção versátil no cimo da corda, agradável,
espera tirar partido dos anos
para que cada outro presente tenha uma parte daquela magia
activa dentro de si.
Eis a casa do mestre perante o visitante,
algo que não consigo exprimir...
O especialista pobre perante uma secção de cabeças ricas
que pagam para ver mais uma vez
a corda bulir!

As coisas simples são as que ficam no coração!

[escrito em Setembro de 2002, antes de todas as epopeias dolorosas, num estado de felicidade, sonho e limpidez de alma, até agora jamais inatingível]


Ao som da música dos pensamentos
nem um lugar livre no espírito...
E exulto de uma dor alegre e merecida...!
Como é doce o amargo de sentir...
e será sempre assim...Deus queira!?
Sentir passar e viver os momentos...
Não é a primeira vez nem será a última
a vez que me percorre assim
a vida e o tempo imaginário...
E esta noite que corre e o futuro que vem
os promenores e as cores do presente
que me ensinam e logo são passado...
É essa incrível sensação do irrepetível
e do mágico...
e com a oportunidade vem outro momento
e experiências que no caminho só cabem aqui ou ali...
é, então que observo a comédia e reparo
na importância deste gesto
e de novo clamo ao dom atento
que me prenda nessa felicidade
de ser e estar agora...
Como que no alto da montanha rodeada de três tendas
exaladas de luz divina...
Inspiro e cada segundo passa milimetricamente pelos sentidos
nessa sensibilidade despertada pela compreensão
da beleza e da eloquência da vida...
Mas no acto de extase
no desejo de ali permanecer no tempo e na luz...
a dor de ter que partir
ter que seguir e guardar tudo na caixinha
da memória e da recordação...
E com o coração despedaçado pela dor
e com as lágrimas nos olhos raiados de felicidade
reconheço que as coisas importantes permanecem comigo
e que nas veias após mais um mágico momento
levo guardados horizontes e histórias
para contar e crescer...
Estender os braços, sentir e lançar-me a correr
e ao som da música surge-me o lugar onde
a razão se une à emoção e regresso a esse
doce amargo de mutar e sentir!

Monday, May 12, 2008

Não acendas o fogo...

Não acendas um fogo que não possas apagar!
Ora e vigia à noite...
Se não queres que ninguém saiba, não o faças, não acendas o fogo...
Enganei-me a respeito da natureza do amor
e não sinto agora desejo de brincar quando o mundo faz batota.
Acendi o fogo, enganei-me...
queimei a alma na mais escalarte e dolorosa perda.
Eterna e horrível privação escrita a sangue
na palma das minhas mãos feridas que o tempo não cura!
Não sinto o menor desejo de brincar
quando o mundo escolhe um amor que não passa de emoção.
Não acendas o fogo...
Aprendi que o amor verdadeiro não pode ser prejudicado
porque começa onde não se espera mais receber...
Basta esqueceres que existes, morrer para ti para viveres nos que amas...
As feridas da carne, o sangue a pingar
para apagar o fogo e o sim do fundo do ser cheio de consequências!
A dor faz da noite dia se entregares de vez tudo o que és e tudo o que precisas!

São horas de partir...

[02 Maio 2008]

As ruas estão escuras com algo mais pela noite...
Lágrimas de sangue correm...
Tantos seres tristes e solitários buscando um pouco de luz...
Para cumprir o destino tenho que enfrentar aquilo para que vim e para que fui criada...
Pouco a pouco perceber quem sou e porque estamos aqui fieis à dor e à obscura solidão de sofrer...
Poque tem o ser humano sentimentos e tempo para o silêncio e para a tranquila paciência?
Todos os momentos são horas de partir e de não desejar nada em nome do Amor!