Wednesday, December 17, 2008
Canário
"Eis o enorme problema das expectativas. Criam metas precisas, e até caminhos para lá chegar. Sonhavas, como qualquer um de nós. Hei-de fazer isto, viver aquilo, procupar estas pessoas, dar, dar-me, receberei.
(...)
Lembras perfeitamente o momento. Tu gostas tanto de antecipar momentos. Dá-te mesmo mais gozo do que vivê-los. És assim com as prendas, por exemplo. Gastas mais tempo e dedicação no embrulho do que na compra. Pensas na cara das pessoas a desatar os laços, a rasgar com cuidado o papel colorido, esse momento em que só tu sabes o que lá está e quem recebe está prestes a descobrir.
(...)
Levantou-se e abraçou-te. Lembras. (...) Acompanhada. É assim que os abraços nos fazem sentir. Lembras-te. Que nunca mais te sentiste assim. E que aquele momento era de ambos, e que não se pode explicar, porque não pertence ao reino das palavras.
(...)
Aprendes que a comunhão é materia delicada, gelo fino, nó frágil. Juntos naquele abraço irrepetível, siamês, desmembrados quando estala a tormenta. Assustado, sem saber o que fazer, ele isola-se. Empurra-te para longe, afasta-se do abraço.
(...)
Já não são um, como jusgaste um dia, julgamos todos um dia, mas dois distintos, como somos afinal sempre, se realmente abrirmos os olhos e não pensarmos só com o que bate dentro do peito.
(...)
Repara que quem foge arquitecta logo a expiação. Incapaz de suportar olhar-se a fugir, ele aponta-te e pretende mostrar que o obrigas a isso. Ele é a vítima. Na dúvida inquieta, procura e julga encontrar-te a culpa.
(...)
Nasceste lá para oriente de ti. (...) Sentes por vezes já o crespúsculo em ti, quando todos os outros se esperguiçam ainda.
(...)
As árvores também morrem. (...) Porque muitas vezes parecem vivas mas se repararmos melhor os galhos lá de cima são já uns garfos encurvados, assim como os dedos dos velhos e das bruxas, e se rasparmos um nadinha com a unha verificamos que a madeira é toda igual. (...) Nem sempre a morte é absolutamente visível, ainda que diante de nós, e tantas vezes julgamos que uma árvore vive ainda, pela simples e enganadora evidência de se encontrar de pé."
Rodrigo Guedes de Carvalho
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1 comment:
É de facto um grande livro..
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