Wednesday, July 30, 2008

A uma ausência...

Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado;
Ando sem mover, falo calado,
O que mais perto vejo se me ausenta,
E o que estou sem ver mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado;
Choro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;
Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.

António Barbosa Bacelar
(1610-1663)


Wednesday, July 23, 2008

Uma resposta em nenhuma pergunta!

Como descrevem estas palavras minha alma...
É fácil não querer saber, ter medo e fugir
Ser um personagem distante
É fácil beijar quem pouco te mexe
O difícil é tremer
Desejar mais, arder de febre
Ter medo do que não se conhece
De descontrolar-se, de se perder, de se esquecer
Mas seguir adiante
Gelar as mãos
Suar o rosto corado de sangue
Ridicularizar-se
Palpitar o coração
Expor-se frágil dama, sendo homem ou mulher, às dolorosas boas penas
Se dar e às vezes se jogar a um desconhecido qualquer
Num gosto antítodo, intenso
Gostar do atrevimento e do profundo irrompendo
Fazendo-se viver realmente em dobro
Perceber o que não se fazia perceber
É um sisco o provisório demais
Não ser radical e inteiro ao que pode o bem
O bom mesmo é viver a generosidade da entrega
Responder ao aperfeiçoamento que não havia ainda
A soma do que começa e do que finda
A vida e a morte quando se beija
Às vezes coragem é ficar de frente
Tremer e não correr perante o gigante
Se sentir inocente
Sonhar numa plenitude como se tivesse chegado a eternidade
E de nada mais importar-se
Falar palavras tontas numa dicção solene
Sentir o coração rebelde chocalhando, chamando, querendo, pedindo, independentemente
E então não resistir à fome que a alma e o corpo temem
Se ver na letra que a música grita, que antes, careta, não se suportava
Num susto se percebe docemente que agora existe um único sentido
Uma resposta em nenhuma pergunta
Tudo se torna dele
Das intensidades do amor que vão da angústia à felicidade
E é talvez a unica arte que a arte transmita ao homem em sua total integridade...



Vanessa da Mata

Friday, July 18, 2008

Longe do mundo...

Hoje passei o dia longe do mundo... do mundo que os olhos podem ver ou que os ouvidos podem escutar... mas perto do mundo que o coração sente!

Os pensamentos começaram a correr e agarrei-me à felicidade, que não vou deixar fugir, através dessa certeza, de que todos os momentos são únicos, incomparáveis e eternos, permanecendo vivos dentro de nós...

É esse crer básico que me afirma que tudo é uma coisa só e que podemos aceder à energia e atracção que une a criação, que me acalma e que me mostra que tudo permanece acessível e que é possível gostarmos de nós, como realmente somos e dos outros como eles se apresentam...

Esse crer que me fez deixar de chorar os passados, porque eles simplesmente não existem, afinal demorei tanto tempo a perceber que tudo se encontra irremediávelmente ligado e vivo ao infinito.Tudo o que vivemos continua no presente a emanar um sentido para a vida...


Pela primeira vez não falo melancólica das dores da alma e depois de receber notícias de outros momentos sinto-me capaz, de humilde, pedir perdão pelas magoas injustas causadas ao longo do caminho, por causa do meu egoísmo afunilado, que me impedia a verdade. Sinto agora que posso deixar que ouçam sem palavras, aquilo que prometi calar ou que não sei expressar de mim, do que sou e sinto...

Senti vibrar dentro de mim certezas, que fizeram partir a dúvida e laços que se preservam e pensava perdidos. Enfim, percebi...

Senti o poder do olhar, desses lugares que mostram a alma e sem descrições ou demonstrações confirmei a voz que me falava ao coração! Podem chamar-me básica, mas na verdade as coisas básicas e simples sempre foram essenciais à vida, para que a harmonia e os afectos tenham lugar. E foi através das raízes básicas do amor que sempre resolvi anseios e problemas...

Sei que não vale hoje a pena complicar os momentos ou lutar contra eles e só me escapa a calma, porque verifico ainda em seres que amo a busca perdida desta luz salvadora e cósmica.
Uma luz que ajudei a apagar... mas que quero ajudar a reacender!

Longe do mundo das máscaras todos sabemos, que nada do que se diz e que acaba por magoar é afinal uma verdade sentida... que as defesas se usam na guerra, quando afinal desesperamos pelos abraços prolongados dos afectos...


E se as paixões se esvaziam, o amor à vida e aos que comigo a partilham será eterno e uno sem que nada o possa por em causa! É dura a vida quando vivida em nome do amor, mas longe do mundo que os olhos podem ver, depois de tocar novamente os corações amados e perceber que estamos unidos, para lá de todos os acontecimentos, não há mais espaços vazios nem falta de felicidade...

Eis o meu simples e básico segredo para ultrapassar a dor e curar as feridas!