Foram ausências com que não contava e que surgiram sempre depois de a minha imaginação e espírito livre, o meu coração aberto se entregar a amar... Sei hoje que tiveram uma razão, mas nunca percebi porque não podia contar com o ombro amigo, do sangue que une os irmãos ou com o aconchego de um abraço apertado e frequente de um pai, quando esses momentos eram necessários e me pareciam naturais!?
Nunca percebi porque selei a fogo, ao luar e a preces, amizades e amores infinitos que para mim continuam vivos dentro, eternos, mas cujos personagens partiram para bem longe sem deixar rasto... nunca percebi os tiros que dei no pé quando encontrava um lugar, que me preenchia, e abria a porta das gaiolas para deixar fugir esses passarinhos de emoção, dispostos a cantar para mim?!
Na aparência das circunstâncias, todos os que amei e de quem a minha alma tinha sede estavam por perto, mas no fundo, aos poucos foram-se tornando cada vez mais inacessíveis à minha necessidade de afecto e a tudo o que tinha para lhes dar... Umas vezes partiam inexplicavelmente... de outras tinha eu motivos para os deixar partir, sempre com o desejo de uma próxima visita e com a mágoa do seu não regresso inevitável...
No fundo o meu vazio era egoísmo e queria sempre mais do que estava disposta a oferecer. E tantas vezes me forçei a tentar esquecer a necessidade de receber e nem mesmo assim fui capaz de dar incondicionalmente. Antes, fechei-me dentro de mim com as minhas mágoas, dores e com as memórias dos momentos, em que essas perdas ainda não existiam e as relações eram plenas... E quanto mais corria atrás da salvação dessa energia vital dos afectos, mais ela me escapava das mãos e a sensação de distância, vazio e impotência face aos acontecimentos acabava por me preencher os dias.
Posso dizer que já sofri ausências de todo o tipo e sempre foram afectivas, na família, nos amores e amizades, no trabalho...mas houve sempre um lugar que não se desgastou, apesar das crises e convulsões...Um lugar que alguém deixou sempre aberto para mim, apesar das diferenças e da forma diferente de sentir e encarar a vida, à qual nem sempre soube ser grata, onde nem sempre depositei tudo o que tinha para dar...um lugar de onde já exigi muito, num tempo em que fugia a mais tiros no pé!
Um lugar calmo onde repousar de todas as ausências sentidas e todos os lugares vazios, que gostaria de manter preenchidos, um ser que me completa e me aceita como sou e que sempre permaneceu ao meu lado, demontrando prazer ao meu toque, ternura face às feridas causadas pelos inumeros tiros que fui dando nos pés, devido às carências e inseguranças.
Um ser que demontra luz e felicidade face ao som da minha voz e à possibilidade de podermos para sempre dormir aninhados, enlaçando os nossos sonhos, que me suporta para que possa concretizar os meus planos e realizar-me, que sinto às vezes contemplar-me embebecido, como se eu fosse o mundo!
Um lugar aparentemente calmo e pacato, que a minha natureza me levaria a rejeitar, mas que por trás do pano onde só eu e ele sabemos os bastidores, se encontra preenchido de aventuras emocionais, de inteligência, projectos, amor, perdão e coragem, que percorre o mundo a caminho ou apenas sobre as almofadas da imaginação. Uma história que julguei nas alturas de crise, um lugar comum, mas que afinal é uma contrução unica e só nossa, um templo divino, que aprendo dia a dia a respeitar e a preservar.
Compreendo hoje esse destino comum à humanidade... essa necessidade de sentir a ausência para que possa alcançar a unidade de tudo e a realidade feliz de nunca estarmos sozinhos, no percuro semelhante a um rio que não para de correr, mas onde as mesmas águas só passam uma vez pelo mesmo lugar, contudo, moldando as margens para que se tornem perfeitas como trilho... Afinal todos os momentos são importantes!
Compreendo hoje essa necessidade de sentir a ausência, para que possa dar valor às presenças contantes e amantes que deixamos de ver, quando nos descentramos da capacidade de amar! Sei agora que é possível ser feliz suportanto a dor dessas ausências e de todas aquelas que ainda vivem em mim e das que estão por vir, transformando-as em seiva e alimento que me reforça, para continuar até um dia ver o mar...
Agora sei onde encontrar tudo o que preciso! É nas margens do caminho que permanecem as recordações das presenças, das amizades, laços e paixões que foram com a maré... Hoje sei que posso sentir a plenitude da vida e deixá-la cobrir o meu ser, porque para regressar a essas histórias e torná-las presenças vivas, basta deixar a corrente por uns instantes e percorrer a pé o percurso da margem, até ao lugar do passado onde quero voltar... para ali ficar e acariciar os momentos da minha vida como pedras preciosas... Afinal não há tempo, somos aquilo que somos e tudo é uma coisa só...
É mais fácil realizar o caminho sabendo que nada se perde, mas que apenas tudo evolui e se transforma, sabendo que as ausências humanas nada valem à luz da presença divina, criadora e constante a meu lado e a essa lugar, a esse ser humano como eu, mas que posso chamar de amor, de casa e de porto seguro para ganhar forças e seguir...
Ah! Também descobrir que para amar são mesmo necessários muitos tiros no pé, mas que nesses momentos alguém nos carrega ao colo e nos deposita nas águas, que acalmam dores, vontades, desejos e paixões e nos ajudam a descolar dos caminhos que deixamos para trás na certeza de saber escolher!
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