Saturday, June 14, 2008

Será que ainda há Heróis?!

Lisboa, 05 de Maio de 2006 [Em pleno auge de uma enorme crise existencial que ainda se prolongou por 2007. Entretanto, chegou a paz e a serenidade, a compreensão, a disponibilidade para encontrar heróis de todos os tipos e para ser feliz, com tudo o que comporta ser humana e ter a capacidade de amar...]

O que eu queria era escrever um poema para descrever o meu estado de espírito e libertar-me desta ansiedade que me corre nas veias, desde que descobri uma crise em mim a crescer nestes últimos dois anos e meio, mas como o rio de emoções era tão grande acabou nesta prosa chorada e confusa, que deixo nas linhas abaixo.
Só sei que se ninguém quiser ler, ou nunca ninguém a chegar a ver, não faz mal, porque me sinto muito mais aliviada, agora que depois de tanto tempo a desejar escreve-la tive coragem de deixar mais uma vez, como é minha natureza quase incontrolável, as coisas que rotineiramente me quero disciplinar a fazer, por que a isso me proponho. Essa foi uma óptima sensação de poder ser eu, fazer o que me apetece e ser livre e não o que acham bem que se faça, se cumpra e se revele!

Fui capaz de ser eu sem me culpar por estará atrasar o mestrado, ou de não escrever o que tenho prazos para cumprir, ou de não visitar quem devo, atender como devia. Sabem que mais, que se dane essa obrigação compulsiva de responder a tudo de forma exemplar; a quem estava a mentir?! Não sou capaz de fazer bem metade do que as pessoas acham que sou ou que eu própria me convenço que sou. O melhor é mesmo assumir que sou assim flutuante, nómada, errante, de vontades, interesses. Que sou egocêntrica, preguiçosa, lunar e tentar ser feliz, porque sou assim e não uma “pedra” estática, imutável, monocultural e demasiadamente certinha para ser verdade.

Não imaginam, mesmo, o prazer de estar a escrever isto, nas circunstâncias de ter um mês cheio de eventos, solicitações e coisas a fazer, sem que isso me afecte e me faça sentir culpada, porque era mais importante para mim derramar estas lágrimas e estas palavras numa folha, para que se tornassem visíveis, saíssem de dentro de mim e me libertassem de toda a tensão e tédio, de que a vida do dia a dia me foi, imprevisivelmente, preenchendo.

O que quero é ser feliz e contribuir para um mundo melhor, repleto de boas experiências e mais leve de pessoas frustradas com a vida, que lhes é quase imposta pela geração anterior também de frustrados que nos educa para um mesmo registo emocional, para uma mesma falsa conduta de boas práticas a que ninguém que fale a verdade pode afirmar que adere totalmente.

Assim, deixo aqui a minha reflexão confusa sobre a minha admiração pelos “heróis” ou “santos” da vida, aqueles que me ensinaram a respeitar e a ter como modelo de vida e sobre as minhas recentes e posteriores inquietações e questionamentos sobre essa verdade, face à descoberta de novas perspectivas, que esta idade pós-adolescente e de adulto recente produziram em mim, inesperadamente, como se tivesse num pulo regressado a esses anos teen, que agora a uma distância moderadamente considerável, me parecem mais calmos que estes twenty.

Na verdade na altura simplesmente vivia e não questionava metade das coisas que me colocavam à frente, o que chamo hoje de ser feliz por ignorância. Efectivamente dói, mas prefiro este inquietante viver pensante e reflexivo, que nos acorda para a vida de uma forma sofrida, mas que nos faz sentir mais vivos e nos desenha os caminhos na ponta dos pés, lembrando-nos da capacidade de optar, investigar, reflectir sobre as nossas opções e sobre o próximo passo, de uma forma livre a autónoma que a ignorância não permite.

Permaneço dividida entre os dois mundos e no fundo não sei se eles serão opostos. Só não quero que as minhas novas perspectivas e opções sejam opostas à capacidade de amar acima de tudo…! Sei apenas que a outra face da moeda do que me foram mostrando, ao longo dos anos, não parece ser de trevas, malvadez ou insensatez gratuitas e que cada dia que passa penso que a capacidade de amar ou a forma de amar que me foram escrevendo na alma, pode ter outras variantes…o que magoa uns, não magoa outros. Tudo depende desse quadro de regras que nos metem pela testa mal começamos a despontar para a vida e que, na maioria dos casos, vem aumentar a frustração e contrariar a natureza humana.

Diz-se que a felicidade se constrói e que deve vir a partir dos outros. Concordo e acho que tenho que recuperar sonhos perdidos que estão do lado da vida que ainda me bate à porta, sem que isso magoe nenhum outro. Mas até que ponto o sacrifício nos transcende, ou pelo contrário nos faz frustrar e ai, então, acabamos mesmo por perder a capacidade de amar, tanto aos outros, como a nós próprios. As ataduras não podem ser tão fortes! De certa forma, o ser humano precisava de asas para voar…! Deixo com prazer, nesta hora em que devia estar a fazer outra coisa, que todos e eu própria consideramos socialmente mais importante, a minha reflexão sobre a afirmação “Ainda há Heróis…”

***
AINDA HÀ HEROIS…!
Heróis que percorrem a vida de cabeça erguida, faces alvas da verdade, pessoas corajosas, dedicadas às regras, à lei e à tradição, assíduas aos compromissos em que depositaram a voz. Que anjos sem mácula de trevas, militantes sem medo de amar…!

Sim! Penso que só por um Amor Supremo os heróis são capazes de sacrificar desejos e vontades, as loucuras e desaires hábeis, para os quais foi criado e aos quais foi sendo vedado o coração humano. Estes heróis parecem-me felizes, estátuas perfeitas de corpo e espírito, como as que vemos nos museus e nos aludem à destreza olímpica do ser, ou como os que vemos nos altares e nos lembram a pureza da alma que nunca chegamos a entender.
Regra geral, são admirados e no meu caminho de semente a árvore frondosa, que hei-de chegar a ser, foram-me ensinando que o sucesso e a felicidade, a justiça, a ética e a caridade se encontram em síntese nesse modelo, que deveria desejar alcançar. Seria, então, feliz assim que a primeira época em que as minhas pequenas flores se revelassem prontas a dar frutos.

A glória estaria na coragem de morrer todos os dias para a vida terrena, no acumular das privações necessárias para atingir a perfeição e a transcendência, no ser depositária de uma vida ordeira, que respeita a terra e os meus semelhantes, através daquilo que hoje sou tentada a chamar, de não experiência ou de privação da experiência, num sentido algo exagerado, pelas inquietações que me percorrem agora.

Concordo, obviamente, com tudo isto de uma forma inquietante e de perfeccionismo extremo, que hoje me corrói e ao qual não consigo corresponder. Às vezes até gostava de ser heroína e de braços abertos fugir do instinto, que me leva a crer que a liberdade de buscar algo mais além, nos pode mostrar caminhos, aventuras, sentimentos válidos e sublimes ,que o tempo e a história dos hábitos foram escondendo e punindo como se não fossem humanos e devessem estar presentes numa vida plena, recheada de experiência, que quão mais diversas, mais vão construindo o nosso mundo interior, repleto de cores e momentos mágicos, para cantar o nosso trilho pessoal no mundo…!

Pois é, às vezes apetece-me bater asas e lutar por esse estado de santidade que grita contra a minha natureza, voar, mesmo sabendo que não posso parar ou sequer vacilar. Mas observo-me atenta…aos meus castelos de ser mulher e antes de ser manhã tombo de um cálice de decisões, sem que nenhuma tenha sido tomada de forma convicta. Ninguém me avisou, nestes já longos anos (para mim) sobre a dor que causa o sabor amargo do vazio e sobre o êxtase, também doloroso, que causa a luz brilhante das recordações. Da queda quebraram-se os muros desse desconhecido a que apontam de imperfeito e agora não sei que fazer deste encontro com a dureza da vida e a beleza prescrita no copo de sonhos, que me embala o sono?!

Aventurei-me um pouco no mundo, percorri os lugares da minha cidade interior e no fundo da alma, as tantas imagens e experiências que deixei de viver ou que ainda não pude conhecer gritaram para chamar por mim…Aceitei viver algumas!? Sim, sei que agora estou perdida, errante de evasões e desilusões, mas também preenchida de afectos e novas emoções.

Afinal não quero depositar mais história num qualquer museu perfeito e dourado, quero construir o meu e quero que seja colorido, diverso, que desperte choros comovidos e sorrisos, vontade de viver a quem o visitar! Será isto medo ou incapacidade de verdadeiramente amar? Será manchar a vida de um pouco de trevas, de ser contra as regras ditadas na passividade dos dias, que correm na rotina do que está definitivamente certo ou errado, Pecar?

E sem limites visíveis a vida acaba por correr intensa, até me mostrar o que nunca me explicaram, que é um risco, mas que todos os dias acolhe quem somos: - pessoas, histórias e seres quebradiços à mercê das intempéries, mas também das oportunidades!

Sei que choro, mas a alma não quer mais nada com esta dança de melancolia e perante os corpos ávidos e a insegurança dos nossos sorrisos, na tarde tépida que passou, só me apetece afirmar que inteligente e feliz não é ser herói, mas saber que ser humano é condição intensa e assumi-la, cravada de fogo, objectos, lugares, sonhos, lutas, sensações, sentimentos, que espreitam à porta do meu castelo, esperando que eu os queira viver, escolhendo a minha panóplia de dores e amores! Afinal… Será que ainda há heróis?

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