O que eu queria era escrever um poema para descrever o meu estado de espírito e libertar-me desta ansiedade que me corre nas veias, desde que descobri uma crise em mim a crescer nestes últimos dois anos e meio, mas como o rio de emoções era tão grande acabou nesta prosa chorada e confusa, que deixo nas linhas abaixo.
Fui capaz de ser eu sem me culpar por estará atrasar o mestrado, ou de não escrever o que tenho prazos para cumprir, ou de não visitar quem devo, atender como devia. Sabem que mais, que se dane essa obrigação compulsiva de responder a tudo de forma exemplar; a quem estava a mentir?! Não sou capaz de fazer bem metade do que as pessoas acham que sou ou que eu própria me convenço que sou. O melhor é mesmo assumir que sou assim flutuante, nómada, errante, de vontades, interesses. Que sou egocêntrica, preguiçosa, lunar e tentar ser feliz, porque sou assim e não uma “pedra” estática, imutável, monocultural e demasiadamente certinha para ser verdade.Não imaginam, mesmo, o prazer de estar a escrever isto, nas circunstâncias de ter um mês cheio de eventos, solicitações e coisas a fazer, sem que isso me afecte e me faça sentir culpada, porque era mais importante para mim derramar estas lágrimas e estas palavras numa folha, para que se tornassem visíveis, saíssem de dentro de mim e me libertassem de toda a tensão e tédio, de que a vida do dia a dia me foi, imprevisivelmente, preenchendo.
O que quero é ser feliz e contribuir para um mundo melhor, repleto de boas experiências e mais leve de pessoas frustradas com a vida, que lhes é quase imposta pela geração anterior também de frustrados que nos educa para um mesmo registo emocional, para uma mesma falsa conduta de boas práticas a que ninguém que fale a verdade pode afirmar que adere totalmente.
Assim, deixo aqui a minha reflexão confusa sobre a minha admiração pelos “heróis” ou “santos” da vida, aqueles que me ensinaram a respeitar e a ter como modelo de vida e sobre as minhas recentes e posteriores inquietações e questionamentos sobre essa verdade, face à descoberta de novas perspectivas, que esta idade pós-adolescente e de adulto recente produziram em mim, inesperadamente, como se tivesse num pulo regressado a esses anos teen, que agora a uma distância moderadamente considerável, me parecem mais calmos que estes twenty.
Na verdade na altura simplesmente vivia e não questionava metade das coisas que me colocavam à frente, o que chamo hoje de ser feliz por ignorância. Efectivamente dói, mas prefiro este inquietante viver pensante e reflexivo, que nos acorda para a vida de uma forma sofrida, mas que nos faz sentir mais vivos e nos desenha os caminhos na ponta dos pés, lembrando-nos da capacidade de optar, investigar, reflectir sobre as nossas opções e sobre o próximo passo, de uma forma livre a autónoma que a ignorância não permite.Diz-se que a felicidade se constrói e que deve vir a partir dos outros. Concordo e acho que tenho que recuperar sonhos perdidos que estão do lado da vida que ainda me bate à porta, sem que isso magoe nenhum outro. Mas até que ponto o sacrifício nos transcende, ou pelo contrário nos faz frustrar e ai, então, acabamos mesmo por perder a capacidade de amar, tanto aos outros, como a nós próprios. As ataduras não podem ser tão fortes! De certa forma, o ser humano precisava de asas para voar…! Deixo com prazer, nesta hora em que devia estar a fazer outra coisa, que todos e eu própria consideramos socialmente mais importante, a minha reflexão sobre a afirmação “Ainda há Heróis…”
***
AINDA HÀ HEROIS…!
Heróis que percorrem a vida de cabeça erguida, faces alvas da verdade, pessoas corajosas, dedicadas às regras, à lei e à tradição, assíduas aos compromissos em que depositaram a voz. Que anjos sem mácula de trevas, militantes sem medo de amar…!
Sim! Penso que só por um Amor Supremo os heróis são capazes de sacrificar desejos e vontades, as loucuras e desaires hábeis, para os quais foi criado e aos quais foi sendo vedado o coração humano. Estes heróis parecem-me felizes, estátuas perfeitas de corpo e espírito, como as que vemos nos museus e nos aludem à destreza olímpica do ser, ou como os que vemos nos altares e nos lembram a pureza da alma que nunca chegamos a entender.A glória estaria na coragem de morrer todos os dias para a vida terrena, no acumular das privações necessárias para atingir a perfeição e a transcendência, no ser depositária de uma vida ordeira, que respeita a terra e os meus semelhantes, através daquilo que hoje sou tentada a chamar, de não experiência ou de privação da experiência, num sentido algo exagerado, pelas inquietações que me percorrem agora.
Concordo, obviamente, com tudo isto de uma forma inquietante e de perfeccionismo extremo, que hoje me corrói e ao qual não consigo corresponder. Às vezes até gostava de ser heroína e de braços abertos fugir do instinto, que me leva a crer que a liberdade de buscar algo mais além, nos pode mostrar caminhos, aventuras, sentimentos válidos e sublimes ,que o tempo e a história dos hábitos foram escondendo e punindo como se não fossem humanos e devessem estar presentes numa vida plena, recheada de experiência, que quão mais diversas, mais vão construindo o nosso mundo interior, repleto de cores e momentos mágicos, para cantar o nosso trilho pessoal no mundo…!
Pois é, às vezes apetece-me bater asas e lutar por esse estado de santidade que grita contra a minha natureza, voar, mesmo sabendo que não posso parar ou sequer vacilar. Mas observo-me atenta…aos meus castelos de ser mulher e antes de ser manhã tombo de um cálice de decisões, sem que nenhuma tenha sido tomada de forma convicta. Ninguém me avisou, nestes já longos anos (para mim) sobre a dor que causa o sabor amargo do vazio e sobre o êxtase, também doloroso, que causa a luz brilhante das recordações. Da queda quebraram-se os muros desse desconhecido a que apontam de imperfeito e agora não sei que fazer deste encontro com a dureza da vida e a beleza prescrita no copo de sonhos, que me embala o sono?!Aventurei-me um pouco no mundo, percorri os lugares da minha cidade interior e no fundo da alma, as tantas imagens e experiências que deixei de viver ou que ainda não pude conhecer gritaram para chamar por mim…Aceitei viver algumas!? Sim, sei que agora estou perdida, errante de evasões e desilusões, mas também preenchida de afectos e novas emoções.
Afinal não quero depositar mais história num qualquer museu perfeito e dourado, quero construir o meu e quero que seja colorido, diverso, que desperte choros comovidos e sorrisos, vontade de viver a quem o visitar! Será isto medo ou incapacidade de verdadeiramente amar? Será manchar a vida de um pouco de trevas, de ser contra as regras ditadas na passividade dos dias, que correm na rotina do que está definitivamente certo ou errado, Pecar?
E sem limites visíveis a vida acaba por correr intensa, até me mostrar o que nunca me explicaram, que é um risco, mas que todos os dias acolhe quem somos: - pessoas, histórias e seres quebradiços à mercê das intempéries, mas também das oportunidades!
Sei que choro, mas a alma não quer mais nada com esta dança de melancolia e perante os corpos ávidos e a insegurança dos nossos sorrisos, na tarde tépida que passou, só me apetece afirmar que inteligente e feliz não é ser herói, mas saber que ser humano é condição intensa e assumi-la, cravada de fogo, objectos, lugares, sonhos, lutas, sensações, sentimentos, que espreitam à porta do meu castelo, esperando que eu os queira viver, escolhendo a minha panóplia de dores e amores! Afinal… Será que ainda há heróis?
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