Mulher feitiçeira, mulher com coragem sem fim...? Não sei se se perdeu dentro de mim, mas não lhe sinto a vida como antes, pulsante no meu sangue... e resolvendo seguir adiante na certeza de melhores dias e dos muitos caminhos, sorrisos e abraços que ainda tenho para receber, do simples e imenso êxtase de estar viva e receber da terra mãe as forças para manter o equíbrio.
E os dias correm mas jamais serão completos enquanto sentir dentro as lágrimas frias, que agora têm dificuldade em sair, em rios de sentimentos como antes, quando nunca deixava acumular mágoas e feridas e as chorava literalmente até à exaustão, para depois renascer!
Sinto-me de tal modo frágil, vitima de distâncias que nunca procurei, que tenho sonhado frequentemente que estou emlabada no colo de um gigante que bem podia ser Deus e que trata de curar todas as feridas, que a necessidade de um mundo com mais afectos e a sua ausência real causa em mim. Deus! Ele que nos deixou o desafio de dar sem esperar receber e que nestas alturas parece impossível de cumprir.
É realmente grande o desafio de viver sem esperar receber e maior ainda o de perceber que para lá de toda a a nossa dor e mundo pessoais, a responsabilidade de dar é permanente.
Quando isto acontece acabamos por ficar magoados com os que nos são próximos por não perceberem o que se passa connosco e a nossa necessidade de receber. Por outro lado ao demontrar isso, impulsionamos nessas pessoas, que são o cerne da nossa vida, sentimentos de culpa, por se terem elas também perdido nas suas tempestades, sem atenderem prontamente à tempestade do lado.
Como gerir tudo isto e não deitar fora as partes boas da vida durante uma fase crítica? Como dar sem limites, quando estamos tão carentes de receber? Que desafio à transcendência!
Tenho estado fechada na minha carapaça a curtir a minha dor, apesar de parecer circular por ai com todo o ar da minha graça. Também me senti sozinha e imcompreendida por todos... fora do mundo, como costumo dizer e por isso inconscientemente calei tudo o que a alma sentia desordenado. No momento não sei sequer se sou capaz de abrir a tampa da concha para espreitar o mundo cá fora, onde não existem afinal as coisas como até hoje as percebi.
Tantas necessidades internas e depois as necessidades externas dos que me rodeiam. Se calhar não consigo corresponder ao que esperam de mim. Talvez seja um fracasso emocional, apesar de pensar que sou muito sensível aos outros e aos sentimentos.
Niguém identificou a minha capacidade de amar e o amor que realmente sinto, só porque não estive e não o demonstrei de uma forma corriqueira e facilmente imaginável, replicável do mais hollywoodesco dos cenários.
O amor é maior e deve deixar de se reger pela expectativa...
As vezes esperamos que as pessoas adivinhem como estamos e que respondam às nossas necessidades, outras só aceitamos o seu amor se ele for exactamente como o imaginamos ou como doamos o nosso.
Será que vale a pena ferirmo-nos uns aos outros, consciente ou inconsientemente, quando o que precisamos é descentrarmo-nos de nós para perceber que o outro também sente e sofre como nós e que por isso se perdeu nessa torrente de lágrimas internas ou externas, num cantinho só do seu mundo, ora não querendo ver ninguém, ora necessitando de todos os abraços?
Estou triste como à muito tempo não estava e isso irrita-me, pois não consigo aproveitar as coisas boas que simultaneamente às más me vão acontecendo. Sinto-me impotente, pois não consigo ter forças para me dar aos que amo como eles precisam, ora por não reconhecer as suas necessidades, ora por não ser capaz de enfrentar algumas situações.
Sei que preciso ter coragem e voltar a vestir a minha pele feitiçeira para ir á luta, que mais tarde ou mais cedo preciso de descobrir num dos meus muitos Cd’s de mp3 datados de longe e de tão perto, umas faixas que ainda não tenha escutado e que me levem a navegar junto aos passos que fui dando na areia, de forma a poder voltar a contemplar as imagens e as recordações, os objectos...voltar a sentir os cheiros e as sensações, recolocar a minha pequena cadeirinha e a bussola no lugar onde as coloquei antes, sem que isso me fira primeiro a vista e depois o coração.
Preciso mesmo de enfrentar os meus passados e de consolar todos os fantasmas, retirando deles tudo o que de bom me fizeram viver e sentir, transplantando só essas virtudes para o futuro que me aguarda.
Para isso preciso chorar ainda um mar, que se tem recusado a sair e que me força a fingir que está aparentemente tudo bem. Pois bem... recuso-me a continuar a vida neste corre corre em que sei que uma parte de mim partiu para sempre... mas nada faço para cuidar desse lugar vazio, nem para pensar em maneiras de o voltar a preencher! Recuso-me a continuar a ignorar que esse lugar ainda lá está e que afinal não está assim tão vazio, mas sim preenchido de restos naufragados que posso recuperar e cuidar, agora que sei que jamais sairão de mim...
Recuso-me a reger os meus dias pela iminência de mais uma perda...! Afinal se quisermos nada se perde...
Sei que posso ser feliz sem essa parte de mim que partiu e com as partes que nunca cheguei a construir, por entre os precalssos da vida... Sei que a porta estará sempre aberta para que elas voltem a entrar ou para que finalmente eu as reconstrua num sentido positivo ou elas se contruam, mas tenho que ter presente de que não depende só de mim que essas partes, agora à deriva, queiram fazer de alguma forma ainda parte da minha vida...
Sei que posso cuidar desse espaço e que tenho que sobreviver a todas essas possibilidades... mesmo às que fecham a porta pelo lado de fora, pelas que ficarão pela ombreira da minha porta, sem querer voltar a cruzá-la e a reinventar toda a energia que sinto espalhada pelo ar ou pelas que partirão por que chegou o seu tempo...
Sei que tenho que libertar a cada dia um pouco destas lágrimas que me percorrem internamente e deixar sair aos poucos uma dor que quis guardar...
Serei dela merecedora, mas tenho o direito de sorrir e envergar os braços abertos ao sol, na praia que nos viu nascer e aproveitar cada segundo com um sorriso, sem que isso signifique por dentro angustia e incerteza, a cada segundo, face às batidas soltas ou loucas de cada coração!






Posso dizer que já sofri ausências de todo o tipo e sempre foram afectivas, na família, nos amores e amizades, no trabalho...mas houve sempre um lugar que não se desgastou, apesar das crises e convulsões...Um lugar que alguém deixou sempre aberto para mim, apesar das diferenças e da forma diferente de sentir e encarar a vida, à qual nem sempre soube ser grata, onde nem sempre depositei tudo o que tinha para dar...um lugar de onde já exigi muito, num tempo em que fugia a mais tiros no pé!
Compreendo hoje essa necessidade de sentir a ausência, para que possa dar valor às presenças contantes e amantes que deixamos de ver, quando nos descentramos da capacidade de amar! Sei agora que é possível ser feliz suportanto a dor dessas ausências e de todas aquelas que ainda vivem em mim e das que estão por vir, transformando-as em seiva e alimento que me reforça, para continuar até um dia ver o mar...
É mais fácil realizar o caminho sabendo que nada se perde, mas que apenas tudo evolui e se transforma, sabendo que as ausências humanas nada valem à luz da presença divina, criadora e constante a meu lado e a essa lugar, a esse ser humano como eu, mas que posso chamar de amor, de casa e de porto seguro para ganhar forças e seguir...







Olho a lua e sei do sentido uno da vida apesar das suas fases, aparências e da alternância dos momentos. Deixo-me levar crente de que sou exactamente aquilo que devia ser e escuto essa voz que me dita a missão em cada batida do coração...


